Em termos genéricos, ciência significa conhecimento. Assim, estar ciente de algo é o mesmo que ter conhecimento de algo.
Na Modernidade, a palavra ciência ganhou um conotação mais específica: a de "conhecimento científico", que possui objeto e método próprios.
Assim, ciência passou a ser: um conjunto de conhecimentos sobre um determinado fenômeno, que se obtém através de métodos rigorosos de observação, experimentação e análise, com o objetivo de descrever, explicar e prever tal fenômeno de maneira objetiva, sistemática e replicável. Os fenômenos mais apropriados para essa abordagem são os naturais (como física, química ou biologia). Já os fenômenos humanos (como psicologia, direito ou história) não se prestam a essa abordagem com a mesma facilidade e resultados que os fenômenos naturais.
Acredito que a tentativa de enquadrar a Psicologia como uma ciência nasceu no ocidente, século XIX, por influência de correntes filosóficas como o Positivismo, que levaram os estudiosos a crer que o melhor e talvez único tipo de conhecimento humano confiável seria o conhecimento científico.
Ocorre que isso é como tentar encaixar um objeto redondo em uma forma quadrada, como na imagem que ilustra essa postagem.
No texto Psicologia Humanista: a história de um dilema epistemológico, destaca-se a dificuldade em se enquadrar esse sistema psicológico dentro do conceito moderno de ciência. Na minha visão, tal texto explora um desdobramento específico de uma dificuldade maior: as ciências humanas como um todo possuem como objetos de estudo fenômenos que não se prestam aos postulados do método científico moderno, pelo menos não de maneira ampla como os fenômenos naturais. Por isso, é um equívoco esperar que um estudo científico sobre esses fenômenos naturais nos dê os mesmos resultados, em termos de objetividade e previsibilidade.
Talvez, melhores resultados sejam obtidos quando o objeto de estudo seja um aspecto da ser humano mais semelhante ao mundo natural (como os hormônios, os neurônios, as secreções). Nesse ponto, o Behaviorismo pretendia estudar tais pontos e, se limitado a isso, poderia trazer algumas informações científicas.
Porém, quanto mais o objeto de estudo se afasta dos fenômenos naturais e se torna mais propriamente humano (como o "sentido", o "propósito", a "auto-realização"), menos sentido haverá em se aplicar um método científico. Simplesmente porque o instrumento não é apropriado ao objeto.
Assim, é necessário, antes de tudo, nos libertarmos do cientificismo positivista, para que entendamos que outros "conhecimentos" (como o filosófico, o teológico ou o jurídico) também são importantes para a compreensão de fenômenos humanos, cada um com seu método próprio, que procura ser mais apropriado a cada objeto.
Libertados, não nos preocuparíamos sequer em responder se a Psicologia é uma ciência, assim como não estamos interessados em saber se a culinária é uma técnica ou uma arte, importando-nos apenas em que o resultado da Psicologia seja palatável e produza os efeitos esperados.
Nisso, pode nos ajudar a lembrança de que, em termos históricos, a Psicologia surge da Filosofia, como apresentado no video Origem e surgimento da Psicologia como ciência, e na apresentação A ciência psicológica e os sistemas psicológicos, indicados pelo professor Julio Collares na disciplina de Sistemas Psicológicos I. Ali, vimos que o termo "psicologia" surgiu no século XVI, enraizado na Filosofia e na metafísica, visto que se tratava de um estudo sobre a "alma". Vimos também que o conceito de "alma" foi alterado para "consciência", no século XIX (já no contexto do positivismo), apenas com o intuito de sublinhar a independência desse conhecimento diante da metafísica (ou, quiçá, me pergunto, diante da teologia), ou seja, apenas como manifestação do preconceito cientificista positivista, do qual precisamos nos libertar para compreender esse ramo do conhecimento humano que chamamos de Psicologia.

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