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As ideias psicológicas na Antiguidade (os pré-socráticos)


 


Transcrição dos slides apresentados pelo Professor.


Introdução

O período convencionado como sendo das ideias psicológicas – fase não-científica da Psicologia – começa com a filosofia dos pré-socráticos e vai até a criação do Laboratório de Psicologia de Leipzig por Wilhelm Wundt em 1879.


Introdução

Apesar de 1879 ser o marco convencionado para o surgimento da Psicologia científica, Wertheimer (1972) aponta que existem outras duas datas possíveis.


Introdução

1860 – Publicação do livro Elementos da Psicofísica de Gustav Fechner, em que explicava a medição precisa de quantidades e eventos mentais, relacionando quantidades físicas com psíquicas, originando a psicologia experimental.


Introdução

1875 – Demonstração dos experimentos de Wundt em Leipzig e também dos experimentos de William James em Harvard.
Michael Wertheimer é um dos poucos historiadores da Psicologia a considerar os experimentos de James como um dos marcos da Psicologia científica.


Introdução

Michael Wertheimer é filho de Max Wertheimer, um dos criadores da Psicologia da Gestalt (Gestaltismo), junto com Kurt Koffka e Wolfgang Köhler.


Os pré-socráticos

Contrário aos outros historiadores da Psicologia, Wertheimer (1972) chama os filósofos que contribuíram para o desenvolvimento das ideias psicológicas de “filósofos-psicólogos”. Essas contribuições foram importantes, mas tal título é considerado exagerado.


Tales de Mileto (625-4 – 558-6 A. C.)

De ascendência fenícia, natural da Jônia, Ásia Menor. Primeiro físico grego e investigador das coisas da natureza como um todo. Morreu em 585 A.C.


Tales de Mileto

Suas ideias são pouco conhecidas e não se tem certeza se produziu algum livro. Não possui fragmentos, e sua doutrina foi transmitida pelos doxógrafos.


Tales de Mileto

Tales de Mileto é considerado o primeiro expoente do período cosmológico.


Tales de Mileto

Cosmogênese – "a preocupação da época era entender e explicar o cosmo, saber de que matéria era feito e buscar o princípio e a lei que regia o universo, que até então era concebido mitologicamente. Partiam do pressuposto de que o cosmo era composto de partes ou a mistura de elementos simples". (FREIRE, 2014, p. 25)


Tales de Mileto

Considerava a água – o princípio de tudo – como a substância das coisas, a matéria-prima comum da maioria das coisas no universo.


Tales de Mileto

Seu pensamento parece ter sido influenciado pelo mito oceânico (Okéanos – pai do mundo).


Tales de Mileto

"As sementes de todas as coisas têm a natureza úmida; e a água é o princípio da natureza para as coisas úmidas". (Aristóteles, Metafísica I 3.983 b 6)


Tales de Mileto

"E afirmam alguns que ela (a alma) está misturada com o todo. É por isso que talvez também Tales pensou que todas as coisas estão cheias de deuses […] Parece também que Tales, pelo que se conta, supôs que alma (psyche) é algo que se move, se é que disse que a pedra (imã) tem alma porque move o ferro". (Aristóteles, Da Alma 5 411 a 7)


Pitágoras de Samos (580-78 – 497-6 A.C.)

É difícil separar sua história do mito que foi criado sobre ele. Nascido em Samos, rival comercial de Mileto. Deixou Samos por volta de 540, estabelecendo-se na Magna Grécia (sul da Itália), fundando em Crotona um tipo de associação de caráter mais religioso do que filosófico, cuja doutrina era secreta.


Pitágoras de Samos

Seus discípulos logo se espalharam, criando novas associações em outras cidades. Envolveram-se em política, provocando a revolta dos crotonenses, que foi debelada. Pitágoras fugiu de Crotona, se refugiando em Metaponto, onde morreu em 497 ou 496. Não deixou nenhum documento escrito.


Pitágoras de Samos

"O ser permanente que a filosofia buscava encontra-se nos números". Isto é, o número é a essência permanente das coisas. […] A essência permanente do mundo encontrava-se nos princípios matemáticos. Procurava descobrir a partir daí a ordem permanente que regia o mundo. (FREIRE, 2014, p. 27-28)


Pitágoras de Samos

“Pitágoras sustentava a existência de uma alma imortal, distinta do corpo, à qual preexiste e na qual se encarnava como em uma prisão". (FREIRE, 2014, p. 27)


Pitágoras de Samos

A quantificação como modelo de conhecimento dos aspectos psicológicos foi fundamental para o advento da Psicologia científica.


Heráclito de Éfeso (540 – 470 A.C.)

Nascido em Éfeso, cidade da Jônia, fazia parte da realeza, sendo descendente do fundador da cidade. Sujeito altivo, não teve um mestre e desprezava a plebe, os filósofos que o antecederam e os poetas. Não se envolvia com política e foi considerado o maior dos pré-socráticos.


Heráclito de Éfeso

Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (Logos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões como a do arco e da lira.


Heráclito de Éfeso

Para ele, "tudo é constituído de fogo. Nada existe de permanente ou de fixo; e o fogo é o agente de mudança". (WERTHEIMER, 1972, p. 19)
"Heráclito retira do universo a tranquilidade e a estabilidade, pois isso é próprio dos mortos". (Platão, Crátilo p. 402 A)


Heráclito de Éfeso

Wertheimer (1972) considera que a ideia de fogo em Heráclito pode ser traduzida modernamente como energia.


Heráclito de Éfeso

A ideia de energia é central nas explicações elementistas de Freud (libido – energia pulsional) e de Reich (orgônio – energia sexual).


Heráclito de Éfeso

Para ele, tudo flui como um rio, e a corrente de água que se atravessou ontem é diferente da água em que se mergulha hoje.
William James fez afirmação parecida ao indicar que a corrente da consciência jamais volta a ser a mesma, pois não se pode experimentar a mesma coisa duas vezes.


Heráclito de Éfeso

“Tudo se compõe a partir do fogo e nele se resolve; tudo se origina segundo o destino e por direções contrárias se harmonizam os seres; tudo está cheio de almas e demônios“. (Diógenes Laércio, IX 1-17)


Heráclito de Éfeso

"Lhe parecia que o homem é dotado de órgãos para o conhecimento da verdade pela sensação e pela razão (logos). […] A sensação não é digna de confiança, e a razão se supõe como critério". (Sexto Empírico, Contra os Matemáticos VII 126 ss)


Alcméon de Crotona (por volta de V A.C.)

Alcméon foi apontado por Rosenfeld (1984) como o primeiro psicólogo, mesclando especulação metafísica e observação científica primária. Acreditava na eternidade da alma como Pitágoras.


Alcméon de Crotona (por volta de V A.C.)

Era médico e, do ponto de vista da percepção, concebia os olhos como vias que levavam a luz até o cérebro – Platão acreditava que o centro da alma era o coração, e não o cérebro, como afirmava Alcméon – onde as imagens eram refletidas, concebendo uma rudimentar ideia de nervos ópticos.


Empédocles de Agrigento (490 – 435 A.C.)

Nascido na colônia dórica de Agrigento, na Sicília. Defendeu a democracia, opondo-se à oligarquia, sendo desterrado por isso. Atribuía a si mesmo poderes mágicos. Reza a lenda que ele teria morrido ao se jogar na cratera do vulcão Etna para demonstrar que seria um Deus.


Empédocles de Agrigento (490 – 435 A.C.)

Sua obra é tida como a primeira síntese filosófica e considerava todos os elementos como constituintes das coisas: fogo, terra, água e ar.
*Ele não utilizava o termo "elemento" (stoikhéia).

Empédocles de Agrigento

“Este [Empédocles] estabelece quatro elementos corporais: fogo, ar, água e terra, que são eternos e que mudam aumentando e diminuindo mediante mistura [no amor] e separação [no ódio]; mas os princípios propriamente ditos pelos quais aqueles são movimentados são o Amor e o Ódio”. (Aristóteles, Metafísica I 3.984 a 8)


Empédocles de Agrigento

Segundo ele, caberia à alma a faculdade da sensação, criando uma fisiologia dos sentidos em que "o igual percebe o igual".


Empédocles de Agrigento

“Todos os corpos são dotados de poros dos quais emanam certos fluxos. A sensação resulta da adequação (ou simetria) de tais fluxos aos vários órgãos de sentido. Por isso, um sentido não pode perceber os objetos de outro, pois os poros de um são amplos e os de outros estreitos demais”. (ROSENFELD, 1984, p. 13)


Empédocles de Agrigento

“O processo da visão, em particular, é explicado de acordo com a sua teoria dos quatro elementos (ar, fogo, água, terra) de que é constituído o universo. O interior do olho seria fogo (calor, luz) e, em torno dele, se situam água, terra e ar; através dessas matérias penetra o fogo (a luz ou os fluxos dos objetos) em virtude da substância fina”. (ROSENFELD, 1984, p. 13)


Demócrito (460-370 A.C.)

Nascido em Abdera, colônia jônica da Trácia, foi discípulo de Leucipo e o sucedeu na direção da Escola de Abdera. Elementista.


Demócrito (460-370 A.C.)

Sua filosofia foi ignorada por muito tempo na sua própria cidade. Todavia, é considerado um dos escritores mais produtivos da Antiguidade.


Demócrito (460-370 A.C.)

Restam apenas fragmentos de suas obras (Pequena ordem do mundo, Da Forma, Do entendimento, entre outras), e sua filosofia é conhecida a partir de citações dos filósofos que o sucederam.


Demócrito (460-370 A.C.)

Ele é considerado o sistematizador da doutrina atomista, e sua obra se confunde com a de Leucipo.


Demócrito (460-370 A.C.)

“Tudo se compõe de átomos materiais indivisíveis e unitários em movimento constante. As pessoas, por exemplo, são constituídas de átomos de alma e de átomos de corpo, estes qualitativamente idênticos àqueles, porém em movimento mais lento”. (WERTHEIMER, 1972, p. 18-19)


Demócrito (460-370 A.C.)

Reducionista e elementista, acreditava que tudo poderia ser reduzido a um denominador comum: o átomo. Fazia uma distinção quanto ao movimento entre corpo e alma.


Demócrito (460-370 A.C.)

Os processos de percepção eram explicados pela teoria das emanações materiais, em que "ver", por exemplo, era o resultado de receber o reflexo dos objetos.

“Desses últimos emanam imagens ou reflexos penetrando nos olhos e originando assim a visão”. (ROSENFELD, 1984, p. 14)


Demócrito (460-370 A.C.)

Acreditava que o comportamento dos indivíduos era determinado por estímulos externos, introduzindo a questão do determinismo versus livre-arbítrio.


Demócrito (460-370 A.C.)

“Teríamos controle das nossas ações se nosso comportamento é determinado por forças externas?”


Demócrito (460-370 A.C.)

"A natureza e a instrução são algo semelhante, pois a instrução transforma o homem, mas, transformando-o, cria-lhe a natureza”. (Clemente de Alexandria, Tapeçarias IV 151)


Demócrito (460-370 A.C.)

“Pois o prazer e o desprazer são o limite (das coisas vantajosas e desvantajosas)”. (Clemente de Alexandria, Tapeçarias II 130)

“Coçando-se, os homens têm prazer e sentem o mesmo que ao fazer amor”. (Herodiano Gramático, Regras da prosódia comum)


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

Nascido em Clazômenas, na Jônia (Ásia Menor), fundou a primeira escola filosófica de Atenas com o apoio de Péricles, seu discípulo e protetor.


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

Foi acusado de impiedade e preso por negar a divindade do sol e da lua, pois os considerava, respectivamente, uma pedra incandescente e uma terra.


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

Fugiu para Lâmpsaco (Jônia), onde fundou outra escola. Teve tanto reconhecimento nessa cidade que teve moeda cunhada com a sua efígie e recebeu um epitáfio elogioso em sua lápide.


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

Suas obras são objeto de controvérsia quanto à autoria, todavia, foi muito discutido pelos filósofos da Antiguidade.


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

Não elementista, acreditava numa diversidade de elementos formando as coisas. Logo, a unidade de todas as coisas é a relação, pois as coisas estão em relação e mudança constantes.


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

“E Anaxágoras diz que qualquer das partes é uma mistura semelhante ao todo por ver que qualquer coisa procede de qualquer coisa". (Aristóteles, Física III 4.203 a 19)

Essa ideia de relação teria influenciado os psicólogos da Gestalt na primeira metade do século XX.


Anaxágoras de Clazômenas (500 – 428 A.C.)

“[…] uma mente é a coordenadora e a causa de tudo. Encantado com essa causa […] pensei: “Se isto é assim, a mente coordenadora organiza tudo e estabelece cada coisa da melhor maneira possível… Imaginei ter encontrado em Anaxágoras um mestre da causa dos seres […]“. (Platão, Fédon 97 b)


Os sucessores dos pré-socráticos

Os pré-socráticos foram sucedidos pelos sofistas e depois por célebres filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, que serão apresentados posteriormente e, ao contrário dos seus antecessores, tiveram algumas de suas obras preservadas, chegando integralmente ou quase integralmente aos dias de hoje.


Referências

  • RIBEIRO, I. Raízes da Psicologia. 15 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
  • ROSENFELD, A. O pensamento psicológico. São Paulo: Perspectiva, 1984.
  • WERTHEIMER, M. Pequena história da Psicologia. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972.
  • CIVITA, V. (Ed.) Os Pensadores: Os pré-socráticos. Vol. 1. São Paulo: Abril Cultural, 1973.


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